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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Os trabalhadores forçados portugueses na Alemanha Nazi

No centro Cultural de Belém abre amanhã a exposição “Trabalhadores forçados portugueses no III Reich”, uma iniciativa que reúne material recolhido pela equipa de historiadores portugueses, liderada por Fernando Rosas, que nos últimos anos investigou este tema em arquivos portugueses e alemães.



A abertura está marcada para as 18 horas, altura em que também arranca um colóquio internacional relacionado com o tema.

Para quem está longe ou quer saber mais e já há sempre a possibilidade de adquirir a mais recente edição da revista “Visão História” dedicada ao tema e que também foi preparada pela mesma equipa de historiadores.


 Em mais de uma vintena de artigos é possível conhecer o enquadramento histórico e os relatos de vários portugueses que trabalharam de forma forçada para o esforço de guerra alemão…

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Guerra Civil de Espanha em Lisboa

O Instituto Cervantes, em Lisboa, recebe hoje a apresentação do livro “Extremadura en el Esperjo da la Memória” e de um documentário de 1936 sobre a actividade dos “yuntaderos”, os homens que cuidavam das juntas de bois, produzido em 1936 e desaparecido durante quase 70 anos.


O livro reúne vários trabalhos apresentados por historiadores durante um ciclo de conferências que decorreu no final do ano passado na zona de Badajoz. Os trabalhos abordam questões relacionadas com franquistas e republicanos e até o relacionamento de Portugal com as partes em conflito.

O filme foi uma produção de 1936, do Governo republicano, com o objectivo de divulgar a natividade dos “yuntaderos”. O documentário foi redescoberto nos arquivos russos há alguns anos depois de se ter pensado que teria desaparecido após guerra civil. Julga-se que será uma das cópias enviadas para Paris durante o conflito com objectivos propagandísticos. Com a invasão alemã terá sido entregue na Embaixada Soviética que o enviou para Moscovo.

 Boas razões para dar uma volta pelo Instituto Cervantes…

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Algumas perguntas a Cláudia Ninhos

A forma como a Alemanha olhou e se relacionou com Portugal durante o período da II Guerra Mundial é o tema central do novo livro da historiadora Cláudia Ninhos. "Portugal e os Nazis" já pode ser encontrado nas livrarias e o seu lançamento está marcado para o dia 14 de Novembro na livraria Buchholz.

Para saber um pouco mais sobre esta nova obra ficam algumas informações deixadas pela autora...

Aterrem em Portugal - Porque se interessou pelas relações entre Portugal e o Nazismo?

Cláudia Ninhos - O interesse começou por ser apenas pela língua alemã, que estudei na escola, durante o ensino secundário, e no Goethe Institut. Só depois é que evoluiu para um interesse pela história e pela cultura alemã, em geral. Quando fiz a minha licenciatura em História tive a oportunidade de frequentar várias disciplinas no departamento de Estudos Alemães.

A língua alemã tem sido uma ferramenta muito útil já que me permitu aceder a importantes arquivos e à bibliografia alemã. Em especial no que diz respeito ao estudo da II Guerra Mundial, sempre achei que os investigadores portugueses, ao descurarem esta importante documentação, estavam a esquecer um dos lados da história.

Quando fui para os arquivos alemães fazer investigação, nomeadamente para o Arquivo Político do Ministério dos Negócios Estrangeiros, as minhas desconfianças tornaram-se certezas. O arquivo tem um enorme manancial de informação que sobreviveu à guerra. E não podemos esquecer que a representação diplomática alemã na capital portuguesa esteve aberta até ao final do conflito, em Maio de 1945, mantendo um contacto constante quer com as autoridades portuguesas, quer com as alemãs, o que torna a documentação extremamente rica.


AP - Houve uma grande intervenção cultural, social, económica e propagandista do nazimo no nosso país antes e durante a guerra. Havia alguma estratégia nesta intensa atividade?

CN - Com a chegada do Ministro Oswald von Hoyningen-Huene a Lisboa, em Outubro de 1934, houve finalmente uma estratégia. Antes disso algumas linhas de actuação estavam já a ser construídas, mas é Huene que vem dar-lhes a estabilidade necessária. Depois, teve a sagacidade de compreender que a cultura alemã poderia ser um instrumento para aproximar os dois países.

Toda a gente olha para a cultura como “apolítica”, mas a verdade é que a política cultural alemã – a Kulturpolitik- tem sempre por trás objectivos político-económicos e Huene soube “vender” muito bem a cultura alemã enquanto instrumento de poder.


AP - Foi possível perceber, através da documentação alemã que consultou, qual a imagem que os dirigentes nazis tinham de Salazar e de Portugal?

CN - Quando o ministro Huene chegou a Portugal teve duas tarefas árduas em mãos. Por um lado, teve de provar à Wilhelstrasse (esta era a rua onde se localizava o MNE alemão e é por isso uma nomenclatura muito utilizada para se referirem ao ministério) que Portugal, aquele país distante e periférico, era importante para o novo quadro geopolítico da Europa dos anos 30.

Por outro lado, em Portugal, teve de aplacar as desconfianças de Salazar e de uma parte da elite portuguesa face ao regime Nacional-Socialista e a Hitler. É claro que tinha em Portugal, nomeadamente em Lisboa e especialemente em Coimbra, um grupo de intelectuais e de governantes que olhavam com admiração para a Alemanha, e isso ajudou-o.

Para Huene, a melhor forma de contrariar o predomínio inglês passava por manter um comportamento amigável em relação ao presidente do Conselho e apoiar os seus objetivos ideológicos para a construção do «Novo Portugal» e as instituições portuguesas, como a Legião e a MP. Quanto mais forte fosse a autoridade de Salazar, mais indepentente seria a política de Portugal em relação a Inglaterra. Enquanto esteve em Lisboa – quase 10 anos! – tentou aproximar os jovens portugueses da Alemanha, promovento inúmeras atividades das instituições culturais alemãs no país, como o Grémio Luso-Alemão.

Há um documento muito interessante em que Hoyningen-Huene escreve para Berlim descrevendo a ditadura portuguesa e explicando por que motivo Salazar não poderia enveredar movimento fascista, com uma dinâmica revolucionária, estando limitado a simpatizar com a ideologia nacional-socialista e fascista.

Apesar de considerar que Salazar conhecia os benefícios da introdução do Fascismo sob a sua própria liderança, havia três factores que, segundo Huene, o impediam de seguir esse rumo. Primeiro, a oposição do exército, que não queria ceder a sua influência a um grande movimento popular. Em segundo lugar, a aversão de Salazar a uma liderança de cariz populista que exigia um contacto pessoal com as massas.

E, por último, o receio de que o «temperamento português» não se ajustasse à tensão, interna e perene, que o Fascismo exigia de cada indivíduo. Huene dizia mesmo que nem o Nacional-Sindicalismo, que ideologicamente denotava uma maior proximidade com o regime nazi, era considerado um movimento de massas, uma vez que a população era maioritariamente analfabeta.

Convite para o lançamento do novo livro de Cláudia Ninhos

AP - da história desse período ficou a imagem de um Salazar dividido em relação ao Nazismo, identificando-se com uma parte da ideologia e rejeitando outra de forma clara. Essa imagem sobrevive à análise da documentação que realizou para escrever este livro?

CN - Embora tivesse consultado documentação de arquivos portugueses, a minha prioridade não foi essa.Neste livro procurei, sobretudo, fazer um exercício contrário ao que normalmente é feito. Ou seja, procurei olhar para Portugal a partir das fontes alemãs para compreender qual a estratégia diplomática germânica, recuando mesmo no tempo para analisar continuidades e rupturas.


AP - Houve alguma parte da pesquisa que a tenha surpreendido de forma particular?

CN - Várias. Uma delas foi o papel central do ministro Hoyningen-Huene. Ele foi a coluna vertebral de toda a diplomacia alemã em Portugal, cultivando relações com a elite portuguesa e até mesmo com os outros diplomatas estrangeiros.

O seu papel moderador relativamente ao regime português desencadeou conflitos com as organizações nazis em Portugal, que constantemente se queixavam do diplomata a Berlim. Outra questão que me surpreendeu foi o acordo cultural. Huene fez da assinatura deste acordo um “cavalo de batalha”, pressionando sistematicamente o governo português. Aliás, acompanhar as negociações deste acordo através das fontes alemãs permite-nos compreender a forma de actuação do MNE e de Salazar. A assinatura deste documento nunca foi recusada pelo regime, que adiou sistematicamente uma tomada de decisão, de tal forma que caiu no esquecimento com a eclosão da guerra.

As entidades portuguesas envolvidas – o MNE, o Ministério da Educação Nacional ou o Instituto para a Alta Cultura- desculpavam-se atribuindo a responsabilidade pela demora umas às outras, o que obrigou Huene a desdobrar-se em intermináveis contactos bilaterais. Ainda a propósito deste acordo, há um parecer redigido por Marcello Caetano, na qualidade de vogal do IAC, que analisa com enorme lucidez os objectivos políticos e económicos da diplomacia cultural alemã, como poderão ler no livro.

Boas leituras,
Carlos Guerreiro