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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

«Escaparate de Utilidades»
Tintura Universo

Programa Cinema "Águia D' Ouro", 26 de Fevereiro 1940

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Fotografias do afundamento do U-581

As fotografias do afundamento do U-581 junto à ilha do Pico pertenciam a um tripulante do Westcott, o contra-torpedeiro britânico que abalroou o submarino alemão depois deste ser obrigado a emergir devido a uma avaria na madrugada de 2 de Fevereiro de 1942.

Imagem que mostra os tripulantes do U-581 na água,
avistando-se também a torre do submarino um pouco mais à frente

(Fonte: World War Two-The War at Sea)
A história deste combate em águas portuguesas ganhou relevo na última semana, altura em que passavam 75 anos sobre o acontecimento, depois dos destroços do submarino terem sido descobertos a 800 metros de profundidade pelos técnicos da Fundação Rebikoff-Niggeler.


Sobreviventes do U-581 a serem recolhidos pelos Westcott.
(Fonte: World War Two-The War at Sea)
Após a publicação do relato do afundamento, na última semana, foi possível descobrir estas fotografias num outro site dedicado à II Guerra Mundial. As imagens foram cedidas pelo filho do tripulante, Alan Chitty, que deixou também algumas memórias do pai.

Alan adiantou a Mike Kemble, autor do site "World War Two - The War at Sea", que o pai, falecido em 2009, não falava muito da guerra mas que a memória do abalroamento foi repetida diversas vezes...

Carlos Guerreiro

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A batalha que afundou o U-581 junto ao Pico

Passavam poucos minutos das nove da manhã do dia 2 de Fevereiro de 1942 quando dois marítimos da ilha do Pico, nos Açores, tiraram do mar o enregelado Walter Sitek, um oficial da marinha alemã, que nadara em direcção à ilha portuguesa durante mais de três horas, depois do submarino em que seguia – o U581 - ter sido afundado por um contratorpedeiro britânico.

O Llangibby Castle pouco depois de chegar ao porto da Horta.
É bem visível o rombo causado pelo torpedo.
O combate acontecera de madrugada e foi ouvido e avistado por residentes do Pico, que nesse dia teriam oportunidade de assistir a outros recontros entre navios da Royal Navy e submarinos da Kriegsmarine, os primeiros encarregados de proteger um navio de transporte e os segundos tentando afundá-lo.

O Llangibby Castle era um navio de passageiros com quase 12 mil toneladas, que em 1940 tinha sido requisitado pelo almirantado para transportar tropas. Em Janeiro de 1942 integrou o comboio WS-15 com destino a Singapura, transportando cerca de 1400 homens ligados a unidades de engenharia e especialistas da RAF.


Um penoso trajecto até à Horta 

Na manhã de 16 de Janeiro de 1942 a popa do navio explodiu depois de ser atingida por um torpedo disparado pelo submarino U-402 que perseguia o comboio. Ficou com um buraco gigantesco, perdeu o leme, sofreu várias baixas entre tripulantes e passageiros.

Apesar dos estragos os hélices continuavam a funcionar permitindo que este tentasse chegar a um porto seguro enquanto fintava ataques inimigos.

Sem escolta, que seguira com o resto do comboio, o caminho não foi fácil. Manobrando apenas com as hélices conseguiu escapar às bombas lançadas por aviões da Luftwaffe, Fw-200 Condor, mas não conseguiu fazer o mesmo em relação aos disparos das metralhadoras que causaram mais algumas baixas as bordo.

O capitão do porto da Horta, primeiro-tenente António Morgado Belo, recebeu o pedido de ajuda à hora de almoço do dia 19, quando o Llangebby Castle se encontrava 90 milhas a Nordeste da ilha. O contratorpedeiro Douro, que se estava no cais, foi posto de sobreaviso caso fosse necessário realizar uma operação de socorro ou de protecção, mas não chegou a sair.

O navio britânico surgiu no horizonte às 10 da manhã do dia seguinte e, com a ajuda do piloto-mor, conseguiu entrar no porto, trazendo 26 mortos e vários feridos a bordo. Quatro destes últimos receberam assistência hospitalar na Horta e um deles, o contra-mestre George Reardon, ficaria em Portugal durante vários meses a recuperar de um grave ferimento na coxa.

Depois de uma vistoria o navio foi autorizado a permanecer 14 dias para realizar reparações, uma informação fornecida em segredo ao cônsul britânico da ilha. Talvez porque existiam espiões na ilha, porque o U-402 conseguiu reencontrar ou adivinhar para onde se dirigia a sua vítima ou porque foi interceptada alguma comunicação, os alemães souberam da presença do transporte na Horta e lançaram alerta para os seus submarinos.


O acidentado cruzeiro do U-581 

O U-581, sob ordens do comandante Werner Pfeifer, foi um dos submarinos que se desviou da rota para tentar apanhar o Llangibby Castle. Saíra do porto francês de St. Nazaire no dia 10 de Janeiro de 1942 com destino à Terra Nova, onde deveria realizar patrulhas durante 14 dias, regressando de seguida a França.

Torre do U-581
Os problemas começaram logo no primeiro dia quando a tripulação testava mergulhos rápidos perto da costa francesa. Durante o exercício o navio chocou com o fundo e danificou o leme que em certas situações deixou de reagir às ordens, o que condicionou o resto do cruzeiro.

Apesar do começo desastrado as coisas começaram a correr um pouco melhor. Perto das 23 horas de 19 de Janeiro, 200 milhas a Oeste de Gibraltar, avistaram o que parecia uma corveta de guerra britânica navegando sozinha.

O mar estava calmo, a noite escura e chuvosa. Dispararam dois torpedos, um dos quais partiu o navio ao meio. Menos de um minuto depois registaram-se novas explosões, talvez causadas pelas cargas de profundidade que se encontravam a bordo. Uma busca entre os destroços não localizou sobreviventes.

 Tratava-se possivelmente do “Trawler” patrulha “Rosemonde” que partira de Gales a 13 de Janeiro com destino a Gibraltar e desapareceu sem sobreviventes durante a viagem.

A ordem para se dirigirem para a Horta interrompeu os planos de continuarem para a Terra Nova. No dia 31 já estavam nas imediações da ilha e, durante a noite fizeram uma visita ao porto. Aparentemente o Llangibby Castle encontrava-se atrás do cais de pedra, o que impediu que disparassem torpedos para o afundar.

Do submarino conseguiam ver o movimento em terra e as luzes dos carros a passar. No dia seguinte afastaram-se para alto mar onde permaneceram longe da vista, mas prontos a intervir caso fosse necessário.

Quando caiu a noite o U-581 estava de nova à entrada do porto. Por volta das duas da manhã encontrou-se com outro Uboat que entretanto também havia chegado à ilha. Os comandantes Werner Pfeifer, do U-581, e Siegfried Von Forstner, do U-402, alinharam os seus navios e a estratégia a seguir.

Decidiram colocar-se nos extremos do canal que separa a Horta do Pico. Forstner patrulharia o norte e Pfeifer o sul, cobrindo qualquer das saídas que o Llangibby Castle pudesse utilizar.


Um combate anunciado 

Sem conhecimento dos alemães tinham chegado, durante a noite, um rebocador de mar alto, o "Thames", e três contratorpedeiros – Westcott, Croome e Esmoor – com o objetivo de proteger o Langibby Castle até Gibraltar, onde poderia ser alvo de reparações mais demoradas.

De madrugada o U-581 apercebeu-se da aproximação de dois navios de guerra. Disparou um torpedo da popa, mas este passou muito longe do alvo. Com uma lua forte que iluminava a noite o comandante alemão deu ordens para submergir, mas durante manobra, e quando se encontravam a cerca de 80 metros de profundidade, saltou um rebite do escape de saída de fumos de bombordo e a água entrou em torrentes para o compartimento do motor a diesel. A ameaça estendeu-se depressa ao motor eléctrico, que permitia ao submarino navegar submerso.

O HMS Westcott
Num ambiente descrito pelos tripulantes como sendo de pânico, e com navio a descer cada vez mais para o fundo, foi dada ordem para realizar uma emersão de emergência, enchendo de ar os tanques de lastro.

O Uboat disparou dos 160 para os 20 metros de profundidade, altura em que o engenheiro de bordo alertou o comandante para o facto de se ouvirem de forma muito clara as hélices dos navios que estavam por cima. O perigo de chocar com um deles era muito real.

Foi dada nova ordem para descer e a operação, meio descontrolada, levou o submersível de novo aos 150 metros. Segundo alguns tripulantes foi naquele momento que os nervos de Pfeifer cederam, tendo dado nova ordem para emergir.

Durante estas manobras o submarino aproximou-se intencionalmente do Pico, mas na época não ficou claro se o combate acontecera em águas territoriais – e por isso neutras – ou não. A equipa da Fundação Rebikoff-Niggeler, que descobriu os destroços em Setembro passado, publicando as primeiras fotografias na National Geographic deste mês, confirmou que o submarino se encontra a 2,1 milhas da costa, indiciando que o combate ocorreu em águas portuguesas. Hoje essa informação não é relevante, mas na época poderia ter desencadeado um conflito diplomático…

Tanto o Westcott como o Croome seguiam os sinais do sonar quando o submarino emergiu repentinamente nas proximidades. Ian Bockett-Pugh, comandante do primeiro contratorpedeiro, mandou virar o navio e a toda a velocidade tentou abalroar o U-581. O submarino escapou por pouco, mas não conseguiu evitar o efeito da explosão de dez cargas de profundidade lançadas durante a sua passagem.

Com uma viragem apertada para bombordo o Westcott aproou de novo ao submarino insistindo na tentativa de abalroamento. Disparar os canhões era perigoso devido à proximidade do Croome.

Contratorpedeiro e submarino encontravam-se agora em rota de colisão. Quando se cruzaram o navio britânico rodou para estibordo atirando a quilha para cima do submarino junto da torre. A maior parte dos alemães, que já estavam a sair para a coberta, saltaram para a água pouco antes do impacto...

O Westcott mostrava intenções de repetir o abalroamento, mas o submarino ergueu a proa e afundou-se rapidamente. O comandante tinha dado ordens, antes de abandonar o seu navio, para abrir as válvulas para facilitar a entrada de água. Eram cerca das seis da manhã.

Quatro homens morreram, mas 42 conseguiram saltar para a água e todos, à excepção de um, foram recolhidos pelos dois contratorpedeiros britânicos. Walter Sitek tinha sido um dos primeiros homens a sair para o convés do submarino e quando viu os camaradas saltar fez o mesmo. Tirou a roupa, ficando apenas com uma camisola e o colete salva-vidas vestidos. Não queria em circunstância nenhuma ficar prisioneiro e por isso nadou… com toda a força que tinha.

Depois de ser recolhido no pequeno barco de pesca, três horas depois, acreditava que a maior parte dos seus camaradas tinha morrido.

Pouco satisfeitos com esta “fuga” ficaram os oficiais alemães aprisionados. Durante o interrogatório tanto o comandante como o engenheiro ficaram preocupados com a possibilidade de Sitek relatar, na Alemanha, o mau ambiente que se vivia a bordo do submarino e a forma como foi conduzido o cruzeiro e o combate.

Em terra, na Candelária, Sitek foi tratado e vestido. Seguiu depois para a Madalena e dali para a cidade, onde foi assistido pelo médico do contratorpedeiro português Douro. Regressou depois à Alemanha onde comandou submarinos e sobreviveu à guerra. Foi condecorado com uma Cruz de Ferro de Segunda Classe e outra de Primeira.


Outro combate no canal de São Jorge

O Llangibby Castle saiu do porto da Horta, auxiliado pelo rebocador, por volta das 11 da manhã. Pouco depois foi rodeado pelos dois contratorpedeiros que horas antes tinham combatido o U-581. Mais a norte esperava-os o terceiro navio de guerra. Todos seguiram depois pelo canal de São Jorge onde ao fim da tarde se viriam a registar novos combates, mais uma vez à vista de terra.

Walter Sitek
(Uboat Net)
Por volta das 17 horas, a meio do canal, um dos contratorpedeiros saiu da formação para lançar várias cargas de profundidade. O efeito das explosões fez-se sentir na Piedade, Ilha do Pico. Ao mesmo tempo foi avistado a algumas milhas do comboio um submarino à superfície cruzando o canal.

Uma hora mais tarde um contratorpedeiro voltava a destacar-se da escolta para atacar o submarino que estava a aproximar-se à superfície. Os alemães parecem ter mergulhado à pressa, não voltando a ser avistados, apesar dos britânicos terem continuado – pontualmente – com disparos e, possivelmente, com o lançamento de cargas de profundidade. O submarino não foi atingido.

O Llangibby Castle chegaria com a sua escolta a Gibraltar dias depois. Foi alvo de algumas reparações e depois seguiu para Inglaterra onde recebeu finalmente um novo leme. Entre outras missões viria a participar no transporte de tropas no Dia D para a praia Juno e, mais tarde, também para as praias Omaha e Utah. Foi vendido para sucata em 1954…

Carlos Guerreiro

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

U-boat encontrado a sul do Pico

O U-boat 581 da marinha alemã, afundado em Fevereiro de 1942 na sequência de um combate com navios britânicos, foi encontrado a 13 de Setembro por uma equipa da Fundação Rebikoff-Niggeler, que utilizou um pequeno submersível para descer aos 800 metros de profundidade e fotografar os destroços.


As primeiras imagens foram publicadas na edição deste mês da revista National Geographic que revela também alguns detalhes sobre o combate que teve lugar a 2 de Fevereiro de 1942 e que levou ao afundamento deste navio.

Edição de Fevereiro da National Geographic
Toda história do combate, baseada nos relatórios compilados pelas autoridades portuguesas e informação britânico, será revelada na quinta-feira no aqui no blogue.

Até lá…

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Quando Lisboa recebeu Vivien Leigh e Lawrence Olivier

Em Janeiro de 1941 os jornais portugueses exibiram orgulhosas primeiras páginas anunciando a passagem por Lisboa do casal de actores Lawrence Olivier e Vivien Leigh, numa passagem que os havia de levar para Inglaterra onde pretendiam colaborar no esforço de guerra.

Chamada de Primeira página do
jornal "O Século" de 8 de Janeiro de 1941
Olivier e Leigh tinham casado em segredo em Agosto de 1940, depois de divórcios bastante badalados, e eram ambos estrelas reconhecidas de Hollywood, apesar de tanto um como outro serem britânicos.

A presença na capital portuguesa do actor de “Monte dos Vendavais” e da actriz que recebera o Óscar pelo seu papel em “E tudo o vento levou” causou um reboliço pouco habitual no porto de Lisboa.

O casal chegou a bordo do navio americano Excambion depois de ter passado dois anos nos EUA, ainda neutrais, mas onde não se sentiam úteis à guerra ou protegidos devido às sua ideias.

Na América havia mesmo quem temesse pela vida dos dois actores que abertamente apoiavam Churchill e criticavam Hitler, irritando alemães, pró-alemães e isolacionistas americanos por igual.

Os jornalistas portugueses subiram a bordo e encontraram o casal a reunir malas e as descrições publicadas na maior parte dos periódicos é digna de qualquer revista cor-de-rosa dos nossos dias.

Lawrence Olivier regressava com a intenção de se juntar à RAF, pois tinha experiência como piloto. À chegada a Inglaterra seria desafiado para participar em mais um filme de propaganda e mais seria integrado na Fleet Air Arm, a Força Aérea da marinha. Nunca se viu envolvido em combate a até ao fim do conflito esteve envolvido no esforço de propaganda participando e realizando filmes com esse objectivo.

Ficam alguns detalhes das notícias publicadas em dois jornais da época: O "Diário de Lisboa" de 7 de Janeiro de 1941 e "O Século" do dia seguinte.

Parte da notícia do "Diário de Lisboa"
de 7 de Janeiro de 1941

Parte da notícia do Jornal "O Século"
de 8 de Janeiro de 1941
Carlos Guerreiro