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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O “simpático” afundamento do Corte Real

O imediato do “Corte Real” ficou estarrecido com a ordem do comandante alemão. Jorge Soares de Andrade tinha acabado de receber a informação de que o seu navio iria ser afundado.

Tentou argumentar, mas o comandante do submarino alemão dizia-lhe que no manifesto de carga estava mercadoria para um país inimigo dos alemães: o Canadá. Razão porque pretendia afundar o Corte Real logo que passageiros e tripulantes o abandonassem.

 Fotografia publicada na revista "Mundo Gráfico" de 30 Outubro de 1941 com uma longa legenda de onde se destacam as frases:
"Pela terceira vez, um navio de Portugal, país neutro, é torpedeado. (...) Toda a nação portuguesa condena com a mais profunda inquietação esta inqualificável violência".
(Foto da publicação: Hemeroteca de Lisboa)

Soares de Andrade ainda convenceu o capitão-tenente Hans Werner Kraus a ouvir o comandante do Corte Real. Ele sabia um pouco de alemão e de certeza - salienta no inquérito elaborado pela marinha - que “poderia esclarecer qualquer dúvida que porventura pudesse haver”.

O imediato voltou a cruzar, num bote, os 200 metros que separavam o submarino U-83 do Corte Real para avisar o capitão José Narciso Marques Júnior, que não perdeu tempo a fazer o caminho inverso para tentar impedir que a viagem, aparentemente normal, se transformasse numa tragédia.


Uma neutralidade pouco respeitada 

Apesar da Guerra nada faria supor que estaria atravessar uma situação deste tipo. Era verdade que dois navios portugueses tinham sido recentemente afundados por submarinos – o Exportador I (01-06-1941) e o Ganda (20-06-1941) – e que vários outros tinham sido interceptados tanto por alemães como por britânicos desde os finais de 1939.

Em alguns casos cidadãos estrangeiros tinham sido “capturados” durante a intercepção dos navios, mas em nenhum caso tinha surgido uma ameaça concreta de afundamento.

O "Corte real" e a tripulação com os passageiros fotografados para a edição do "Século Ilutrado" de 18 de Outubro de 1941.
(Foto da publicação: Hemeroteca de Lisboa)


Por outro lado Portugal era neutral e a carga seguia para um porto americano, também neutral.

A bordo vinham cerca de 710 toneladas de carga. Os jornais da época dizem que se tratavam de conservas, cortiça, vinho do porto e relógios suíços. Também se falou em volfrâmio, mas mais tarde foi negado…

Os passageiros eram duas mulheres com as filhas – embarcadas em Lisboa e com destino a Ponta Delgada – e dois estrangeiros, um francês e um americano – embarcados no Porto e com destino aos Estados Unidos.

A travessia do Atlântico começou pelas 18 horas do dia 11 de Outubro de 1941, quando o Corte Real saiu da Barra do Douro com rota traçada para o Funchal, Nova Iorque e Açores.

A enorme bandeira e o nome de Portugal pintados no casco asseguravam uma identificação clara do navio e quando, na manhã seguinte, foram sobrevoados por um avião alemão, ninguém ficou muito preocupado.

Às 11.45 horas tudo mudou. Foi avistado um submarino que disparou um tiro de canhão para a proximidade do navio, que tratou de travar a sua progressão. Apesar disso ainda se ouviu um segundo disparo.

Utilizando sinais de bandeiras foi comunicado que o comandante da embarcação beligerante pretendia ver todos os papéis relacionados com o navio e com a carga.

A inspecção já durava hora e meia, quando foi feito o aviso do comandante alemão. O Corte Real transportava relógios e outros aparelhos de precisão, oriundos da Suíça, para os Estados Unidos, mas que tinham como destino final o Canadá. Razão suficiente, argumentava Kraus, para afundá-lo.

As justificações e pedidos do comandante português de pouco serviram. Marques Júnior explicou que os aparelhos suíços tinham sido carregados na cidade italiana de Génova, um aliado dos alemães; que estava disposto a regressar a Lisboa para deixar essa parte da carga; que poderia até jogá-la borda fora, já ali, se assim fosse entendido.

Prometia ainda, sob palavra de honra, que até ao final da guerra não voltaria a transportar produtos para países beligerantes inimigos dos alemães.

O comandante do "Corte Real" tentou de tudo para demover o alemão, mas não conseguiu impedir o afundamento do navio a tiros de canhão e de torpedo. Foto do "Século Ilustrado" de 18 de Outubro de 1941.
(Foto da publicação: Hemeroteca de Lisboa)


Hans Werner Kraus não se deixou demover. Tinham meia hora para abandonar o navio.

O regresso ao Corte Real foi feito na companhia do imediato e de um praça do U-83. Duas baleeiras foram carregadas com os 36 tripulantes, os seis passageiros e os principais bens que carregavam.

Depressa se descobriu que uma das baleeiras não estava em condições de navegar, parte dos náufragos tiveram de ser transferidos e os bens de todos – malas e documentos - ficaram para trás.

Uma baleeira e um bote, que também existia no navio, tornaram-se apertados para tanta gente.

Eram já 14 horas quando os dois pequenos barcos chegaram ao submarino, que disparou nove granadas dos seus canhões sobre o Corte Real. Minutos depois seguiu também um torpedo. Talvez dois, segundo o relatório da marinha.

Em meia hora as águas engoliram o tudo.


Simpatia de mão dura 

A pedido de Marques Júnior a baleeira e o bote foram rebocados pelo submarino durante cerca de 20 milhas… as duas mulheres e as crianças foram convidadas a bordo da embarcação alemã, durante esse período.

A cerca de sessenta milhas da costa portuguesa (cerca de cem quilómetros) interromperam a boleia. Os alemães não podiam correr o risco de se aproximar mais da costa.

As mulheres regressaram à baleeira com duas mantas oferecidas pelo comandante alemão, que deixou também leite, pão e água, para todos. Foram ainda fornecidas instruções sobre a rota a seguir.

Para além das mulheres e das crianças, América Ferreira de Almeida de 24 anos, e da folha Maria de 5, e da Odete da Piedade Passos Barros, de 20 anos, e da filha de um, seguiam também a bordo como passageiros o cidadão francês Jean de Lagllardie e o americano Charles Cant Buffinger. Foto do "Século Ilustrado" de 18 de Outubro de 1941.
(Foto da publicação: Hemeroteca de Lisboa)

Uma pistola de sinais luminosos foi também deixada, para além da promessa de que as autoridades alemãs seriam avisadas e que essa informação seria passada ao governo português.

Por volta das 17.30 horas ficaram sozinhos. Nas 13 horas seguintes os náufragos do Corte Real conseguiram remar cerca de 35 milhas e às primeiras horas da madrugada já avistavam a luz do farol do Cabo da Roca.

Pouco depois encontraram o “A Deus”, um barco de pesca do porto da Fuzeta, que se ofereceu para os rebocar até Lisboa…

Perto da costa foram sobrevoados por um avião português que partia para os procurar e já perto de Cascais uma lancha dos pilotos da barra do Tejo completou o reboque até ao antigo Arsenal da Marinha, a poente do Terreiro do Paço, onde eram esperados pelas autoridades…

Nos dias seguintes, e apesar da censura, os jornais portugueses explodiriam de indignação perante o afundamento e a hostilidade para com os alemães subiria de tom… mas isso dava para outra história.

Carlos Guerreiro

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