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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Boas entradas em 2014

A frase está a ficar gasta, mas não há muitas formas de colocar a questão: O ano que agora termina não foi fácil e não se adivinham facilidades para o que aí vem…

Com isto fica dito o óbvio e não acrescento mais nada.

Por aqui prometo colocar as dificuldades de parte e continuar a contar histórias. Aproxima-se um ano que vai ser rico em datas para… Relembrar. Tenho alguma dificuldade em falar de “comemorações” quando estão sobre a mesa os centenários do início da 1ª Guerra Mundial e os 70 anos do desembarque na Normandia. Dois acontecimentos que ceifaram vidas demais.

Cartaz de cinema ambulante "Rádio-Cinema" de finais de 1942.

Apesar de pouco se falar destes temas ainda, vamos certamente ouvir muito sobre estes momentos históricos e terríveis…

Por aqui o “Aterrem em Portugal” está muito próximo das 100 mil visualizações… Neste momento estamos a receber entre 3500 e 4500 visitas por mês e existem contactos para o blogue receber outras colaborações.

Talvez 2014 traga boas surpresas.

De resto o número de interessados neste trabalho cresceu bastante neste ano. São mais de 700 no "Facebook" e cerca de uma centena no "Blogger"…

Obrigado a todos e os desejos sinceros de um excelente 2014.

Carlos Guerreiro

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

«Escaparate de Utilidades»
Salão Anita (2)

Revista "Moda & Bordados", Dezembro de 1944

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Desejos de um bom Natal

Não vou pedir nada e vou dizer muito pouco…

A todos os que acompanharam, leram, divulgaram, comentaram ou simplesmente passaram por aqui desejo um Feliz Natal…

Para a meia da chaminé deixo os desejos de alguns petizes – ricos e pobres – nos idos anos de 1945…

Afinal não eram tão diferentes dos pequenos de hoje.

Revista “Modas & Bordados”, Dezembro de 1944. 
 Em baixo as legendas ampliadas das imagens


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Os rádios do senhor Batalim

“Era moço novo e tinha casado há pouco tempo. Queria lá levantar-me de madrugada, Mas bateram tanto à porta quem tive de vir cá abaixo”, explicava-me o senhor Batalim, que fora dono de uma “venda” em Monchique, no Algarve.

O edifício onde durante anos vendeu copos de tinto à mistura com azeite ou arroz encontrava-se no Largo dos Chorões, ainda hoje uma zona central daquela vila algarvia. Foi nesse largo que o encontrei, já lá vão muitos anos, nem sei bem quantos.

Na altura já estava empenhado na procura das histórias sobre os aviões da guerra e recordo que ele referiu, de forma vaga, um ou outro caso que lhe “tinham contado”, mas a história que me ficou na memória foi outra.

Publicidade a um rádio da marca Siemens de 1943

Foi a epopeia dos seus rádios, durante a guerra, que me fizeram rir. Na altura não tirei muitos apontamentos e quando, anos depois, falei com um amigo de Monchique sobre este caso ele lamentou dar-me a notícia do falecimento do protagonista da história.

As linhas que deixo são, assim, uma mistura de apontamentos e memórias. Faltam certamente pormenores e haveria com certeza mais para dizer… As expressões dele eram riquíssimas. Se alguém tiver mais a acrescentar ficarei, como sempre, agradecido pelo seu contacto.

Pouco antes de rebentar a segunda guerra o senhor Batalim conseguiu comprar a tal “venda” do Largo do Chorão. Já lá trabalhava quando os sócios decidiram vender o estabelecimento e, com algum dinheiro que tinha juntado, resolveu aventurar-se.

Para além do balcão, das prateleiras e outras comodidades habituais num estabelecimento deste tipo também recebeu dois aparelhos de rádio. De facto apenas um funcionava e estava por detrás do balcão, enquanto o outro se encontrava avariado num dos anexos.

Os rádios eram uma das atracções do espaço comercial. Nem tods as pessoass tinham condições para ter um aparelho e ouvir as notícias ou outras emissões na “venda” não era anormal.

Um dia entraram-lhe pela porta adentro o presidente da câmara e alguns fiscais. Vinham a apreender rádio e levaram não só o que funcionava como também o avariado.

O senhor Batalim reconheceu que às vezes “era normal” fechar a porta ainda com alguns clientes para ouvir as emissões da BBC durante a noite. Terá sido por cometer este “crime” que os rádios voaram das suas prateleiras para o depósito da autarquia.

Com a guerra em crescendo os principais beligerantes passaram a emitir noticiário em português. Para evitar que os “sagrados interesses da Pátria” fossem afectados, nomeadamente a sua política de neutralidade, o Governo decretou em 1941 a proibição de ouvir emissores estrangeiros em grupo.

Em muitos locais esta proibição foi cumprida à portuguesa como revela um édito emitido em 1943 pelo Governador Civil de Faro que refere vários casos onde a legislação foi “torneada”. Nesse documento era também decretada a apreensão de todos os aparelhos de rádio que se encontravam em espaços públicos. Apesar de não se lembrar da data em que ocorreu a apreensão esta pode ter acontecido na sequência desta ordem.


Avaria providencial

É alguns dias depois desta apreensão que o senhor Batalim se viu arrancado da cama a altas horas da noite. Quem insistia em bater era um membro da comitiva do então governador civil, Major Armando Monteiro Leite, que nesse dia se deslocara ao conselho para uma visita oficial.

Já no regresso uma viatura da comitiva sofreu uma avaria e sem outra possibilidade tiveram de regressar a Monchique. A “venda” do Largo dos Chorões tinha um dos poucos telefones públicos da vila, razão para o insistente bater na porta. Telefonar não era tão fácil como hoje. A ligação partia de Monchique até à estação telefónica de Portimão onde alguém, manualmente e com um sistema de fichas, assegurava a ligação à estação seguinte até chegar a Faro. Esta última ligava depois ao número de telefone desejado.

Era um percurso demorado que Batalim aproveitou para meter conversa com a filha do Governador Civil. “Era uma rapariga jeitosa” relembrou. Conversa puxa conversa e o caso dos rádios também veio à baila com o comerciante a mostrar-se incrédulo com o que tinha acontecido e contar o episódio como se fosse uma anedota. Terminada a crise regressou à cama e não voltou a pensar no assunto.

Dias mais tarde recebeu um preocupado recado do presidente da câmara. Queria que este fosse à autarquia com urgência. O senhor Batalim lá foi, sem perceber muito bem a razão para tanta pressa. Uma apreensão que se adensou com a conversa e o autarca a tentar explicar que os rádios tinham sido apreendidos por ordem superior. Por fim o autarca foi directo e perguntou-lhe: “Oh Batalim, mas quem é tu conheces?”…

“Não interessa quem eu conheço…” respondeu-lhe o comerciante ainda desconfiado com o rumo da conversa. Por fim o presidente da câmara explicou-se. Tinha recebido uma nota do Governo Civil a dar ordem para que os equipamentos fossem devolvidos, especificando que se referia tanto ao rádio que funcionava como ao outro, o avariado.

Batalim insistiu em não dar mais esclarecimentos. Recuperou os dois rádios e voltou à sua actividade normal… “Só depois do 25 de Abril contei ao presidente da câmara quem eram os meus conhecimentos…e ele acabou por se rir”, concluiu orgulhoso.

Lá diz o ditado: “Não interessa quem tu conheces, mas sim quem pensam que conheces…”

Carlos Guerreiro

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O Postalinho...
Roosevelt: Maravilha na nossa Bandeira


É um postal de propaganda alemão que deverá ter sido publicado em 1942 ou 1943, altura em que houve um grande investimento em propaganda no nosso país. 

O perigo comunista é um tema recorrente na iconografia da propaganda alemã ao longo de todo o conflito. Os símbolos comunistas e o próprio Estaline surgem de forma repetitiva em cartoons, desenhos ou gravuras como encarnações do mal ou do perigo que espreitam a Europa. 

Muitas vezes surgem associados a Churchill (ingleses) ou a Roosevelt (americanos) como forma de os desacreditar.Este postal alemão integra-se neste espírito. A velha aliança com Inglaterra e a promessa de uma vida farta na América, alimentadas por muitos portugueses, não eram fáceis de contrariar. 

Relembrar a aliança com “o diabo vermelho” e acenar com o medo da influência comunista eram uma forma fácil de fazer passar uma mensagem de que os aliados não seriam de confiança… 

Carlos Guerreiro

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Passeio guiado pela Lisboa dos espiões

No próximo fim de semana poderá realizar uma visita guiada à Lisboa dos espiões na companhia da historiadora Irene Flunser Pimentel.


A iniciativa decorre nos dias 14 e 15 de Dezembro e começa por volta das 10 da manhã no Hotel Tivoli, na Avenida da Liberdade. O custo é de 10 Euros e o passeio dura cerca de 3 horas…

Irene Flunser Pimentel publicou recentemente o livro Espiões em Portugal durante a II Guerra Mundial.

Pode encontrar mais informações sobre este passeio AQUI.

Vamos sair de casa???

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

“Casablanca” de volta ao cinema

Humphrey Bogart e Ingrid Bergman vão voltar a encontrar-se numa tela de cinema portuguesa no clássico “Casablanca”, que regressa a salas de Lisboa e Porto a partir do próximo dia 19 de Dezembro.

Anúncio de estreia de "Casablanca" em Lisboa no Politeama em 1945.
 
Do filme, que estreou de forma apressada em finais de 1942 nos EUA e em 1945 nas salas portuguesas, pouco há a dizer. Não estava talhado para se tornar o que hoje se chama um “Blockbuster”, mas foi nisso que se transformou.

Ao longo dos anos foi alimentando os curiosos e amantes de filmes, maioritariamente, no pequeno ecrã. Agora e durante um período limitado vai regressar de novo às telas.


Trailer de "Casablanca" com legendas em Português

A partir do dia 19 nos cinemas UCI El Corte Inglês, de Lisboa, e UCI Arrábida, no Porto, em mais uma sessão clássica, pode assistir-se a esta história que junta Bogart e Bergman nos principais papéis.


Oferta de Bilhetes

O programa “Cinemax” da Antena1 oferece durante esta semana cem bilhetes duplos para a antestreia da “fita” - dia 16 - nos dois cinemas.

Para os receber é necessário responder a algumas perguntas que se encontram no site que pode encontrar AQUI.

“Play it, Sam”…

Carlos Guerreiro

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

«Escaparate de Utilidades»
Camisaria Adão

Jornal "Diário de Lisboa", 19 de Dezembro de 1939
(Diário de Lisboa online - Fundação Mário Soares)

sábado, 7 de dezembro de 2013

Conversas sobre o Dacota no Museu do Ar

Peço desculpa por só agora falar sobre o assunto, mas também não recebi a informação antes…

A Câmara Municipal de Sintra promove hoje, no Museu do Ar, um encontro que tem como tema o célebre “Dakota” - Douglas DC-3, o bimotor que revolucionou o transporte civil e militar durante o anos 30 e 40.


O encontro, que tem entrada gratuita, está marcado para daqui a pouco, às 15 horas, nas instalações do Museu do Ar, Base Aérea nº1 de Sintra.

Os convidados são Lima da Silva, Álvaro Costa, Vitor Silva e Jorge Simões, antigos funcionários da Direção Geral da Aviação Civil e também o Comandante da TAP Carlos Tomaz, que modera o debate, e é responsável pela equipa de voluntários que está a restaurar o exemplar do Dakota (Douglas DC – 3) que existe no Museu do Ar.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O passeio à Exposição do Mundo Português de José Henriques

“O meu avô fala de um avião da guerra no diário dele. Acho que te ia interessar”, foi mais ou menos assim que fiquei a saber da existência do diário de José Henriques, um documento que iria seria mítico para mim durante algumas semanas.

José Henriques e a página do diário onde conta o passeio que fez à Exposição do Mundo Português. 

Quando finalmente a Ana Paula Henriques me apresentou o diário, percebi que estava perante um tesouro… Folhas grossas e grandes, quase tamanho A4, revelavam momentos do dia-a-dia de José Henrique numa mistura de notas sobre a compra de sacas de amónio, naufrágios, pequenas notícias, curiosidades e sabe-se lá mais o quê.

Estão ali duas, três ou quatro décadas de rascunhos de uma vida. É o testemunho de alguém muito atento ao que se passava à sua volta. É o testemunho de um português comum que não se deixa ir em conversas e gosta de tirar as suas próprias conclusões…

Entre as várias passagens encontrei uma que trata de um passeio pela Exposição do Mundo Português, que teve lugar em Belém em 1940. A mostra, que foi um marco do Estado Novo nos anos 40, abriu as portas no dia 23 de Junho e encerrou a 2 de Dezembro.

Tratou-se de uma espécie de glorificação da história de Portugal e também a afirmação do seu estatuto de Nação Imperial. Por ali passaram milhares de portugueses, mas também estrangeiros, muitos recém chegados de um França invadida pelas forças nazis. Entre eles encontrava-se por exemplo Antoine de Saint-Exupéry, que escreveu mesmo um texto sobre a sua passagem pela capital portuguesa.

José Henriques visitou a exposição, na companhia do cunhado, no dia do encerramento. Agradeço à Ana Paula Henriques ter-me autorizado a transcrever este momento do diário… O texto foi copiado tal como está no original… deixo-vos então com este “paceio”…


Paceio à Exposição do Mundo Português


No dia 2 de Dezembro de 1940 fui ver a exposição do mundo português em Belém na companhia do meu cunhado Manuel.; gostei imenço, tanto do paceio como por tudo coanto vi, e importantíssimo, desde o parque das atraçõis , ao grande valor significativo de todos os pavilhões aonde se vê os maiores feitos dos nossos heróis portugueses, vi a espada que segundo estória foi aquela com que Afonsso Henriques lotou com os moiros e todas as armas e instrumentos guerreiros antigos.

Até a pá de ferro que dizem ser aquella com que a padeira de Aljubarrota matou 7 Castelhanos.

Entre as nomerosas coisas dignas de nota, destaca-se o efeito da iluminação sobre um inorme repuxo, a nao Portugal que eu tive ocasião de visitar nesse barco grandioso nessa cravela que representa a navegação com que os nossos antepassados tornarão Portugal um paíz conquistador e colonizador – Do passeio à nao, foi das coisas que mais apreciei, a sala de ouro aonde se via as moedas em ouro de todos os reinados – a marinhagem vestidos com os trajos daquelas épocas! Tudo aquilo era surpriendente.

Inormes lagos com desenas de barcos de recreio, a gasolina  e outros tocados a pés e remos de todas as variedades. Às 11 e 23 minutos veio o snr general Carmona presidir ao encerramento das festas centenárias!

Em tão foi deslumbrante ver o lindo fogo de artifício e 6 bandas de músicas regimentais a tocarem a portuguesa e o povo a cantar juntamente nunca vi coisa que mais gostasse.

Foi realmente mais uma das grandes obras do estado novo – transportes por metade do preço de as partes do país, fica na memoria de todas as pessoas que virão.

José Henriques

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Bombardeiro de Faro no Correio da Manhã

Destroços do Aparelho encontrado em 2000 em frente a Faro. 
(Foto Correio da Manhã)


O Correio da Manhã contou na última edição da revista “Domingo” a história do Bombardeiro que durante a II Guerra Mundial se despenhou em Faro.

Nesse trabalho feito por José Carlos Marques foram ouvidos o neto de um dos pescadores que salvou seis aviadores americanos, os mergulhadores que encontraram os destroços em 2000 e também conversámos sobre o trabalho de pesquisa desta história.

Ouvido foi ainda Michael Pease sobre o seu projecto de construir um monumento que recorde o trabalho realizado por portugueses no salvamento de pessoas no mar durante a II Guerra Mundial.

O jornal colocou agora o texto on-line… Pode ler a história AQUI.

Boas leituras
Carlos Guerreiro

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Livros…
“Lisboa, A cidade Vista de fora 1933-1974”, de Neill Lochery

Este livro é muito mais que o olhar dos estrangeiros sobre a capital portuguesa entre os anos de 1933 e 1974, é também um olhar sobre o regime que governou o país durante cerca de cinco décadas.

Ficamos a conhecer melhor a Lisboa, cidade porto, saída de uma Europa em guerra e a Lisboa – e arredores – refúgio de ex-cabeças coroadas ou VIP’s à procura de descanso num clima ameno.

Mais de metade do livro passa-se no período entre 1933 e o final da 2ª Guerra Mundial, com o seu  desfile de refugiados, espiões e diplomatas.

Acompanhamos ainda o crescimento do Estoril e de Cascais, especialmente, no pós-guerra. O aparecimento dos seus hotéis e das suas vivendas. As festas faustosas que atraiam gente dos quatro cantos do mundo, dos jornalistas e dos fotógrafos que aqui vinham à procura do “very tipical”.

Sonhamos ainda com uma Lisboa que, nos primórdios da aviação comercial, assegurava com os seus aeroportos a orgulhosa ligação entre os continentes Europeu e Americano.

Saint Exupéry, os Gulbenkian (pai e filho), Stanley Kubrick, Maria Callas, Ed Sullivan, Eisenhower, Montgomery, Laurence Olivier ou Evita Perón, entre muitos outros, passaram pela capital portuguesa e deixaram testemunho das suas impressões.

Mas Neill Lochery - que editou o ano passado "Lisboa, a Guerra das Sombras na cidade da Luz 1949-1945" -  vai, como já referi, um pouco mais longe neste novo livro fazendo também a cronologia da forma como os de fora olharam o regime do Estado Novo, desde os tempos da sua afirmação internacional nos anos 30 a 50, até ao isolamento crescente nas décadas seguintes.

Através de depoimentos de diplomatas e governantes, documentos e relatórios estrangeiros percebemos a forma como Salazar passou por estatutos diversos ao longo dos anos. Primeiro um governante “raposa”, respeitado no mundo apesar de governar um pequeno estado Europeu. Depois um dos últimos governos fascistas e colonialistas da Europa, tolerado por possuir os Açores e porque era preciso combater o comunismo. Há um isolamento crescente do país nos palcos internacionais e Salazar começa a ser olhado quase como uma relíquia, um governante fossilizado no tempo.

Todas estas histórias e acontecimentos correm em paralelo ao longo das cerca de 250 páginas do livro, que é lançado agora em Portugal e só mais tarde terá uma edição inglesa.

Apesar de conter muita informação a obra tem uma estrutura simples e é de leitura fácil…

Ao longo das páginas ficamos muitas vezes com a impressão que houve gente que nos “soube tirar a pinta”. É um livro para quem gosta “de nos conhecer”.

O lançamento é no dia 5, no Auditório Lusitânia, em Lisboa.

Recomendo…

Carlos Guerreiro


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Pode adquirir o livro AQUI.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

sábado, 30 de novembro de 2013

Lançamento de "Lisboa - A Cidade Vista de Fora 1933-1974"

Falarei aqui sobre o livro na próxima terça-feira...

Já vou a meio e posso adiantar que a leitura está a ser muito interessante.

Fica o convite para a apresentação de "Lisboa - A cidade vista de fora 1933-1974", de Neil Lochery. O autor estará presente...

Boas leituras.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Assinaturas dos primeiros americanos que aterraram em Lisboa

É uma nota britânica de dez xelins assinada por vários pilotos de caça americanos da II Guerra Mundial, e onde estão os nomes dos dois primeiros americanos que aterraram no nosso país, em Novembro de 1942.

A primeira assinatura é de Jack Ilfrey (assinalado com a seta vermelha), que protagonizou uma rocambolesca fuga do Aeroporto de Lisboa, e a outra é de James Harman (segundo nome depois de Ilfrey), que esteve internado no nosso país e acabaria por morrer em combate no Norte de África.

A nota foi-me enviada por Mike Allard, que em Janeiro deste ano tinha enviado uma outra “Short Snorter” com as assinaturas do grupo americano que, em finais de 1943, esteve em Portugal para ensinar a nossa Aeronáutica Militar a voar e a reparar alguns bombardeiros e caças que aqui tinham aterrado nos meses anteriores. Allard procurava especificamente identificar um português que também assinou aquela nota.

As “Short Snorters" fazem parte da história dos primórdios da aviação americana. Quando duas pessoas realizavam viagens aéreas em conjunto assinavam os nomes numa nota de baixo valor que era guardada como recordação.

Neste caso a nota pertencia, segundo informação de Mike Allard, a Clifford D. Molzahn, um dos outros pilotos da 94ª Esquadrilha de Caça da USAAF. As assinaturas terão sido reunidas entre Junho e Agosto de 1942, quando esta esquadrilha esteve baseada em Kirton-in-Lindsey. Meses depois Ilfrey e Harman aterrariam em Lisboa.


A louca fuga de Ilfrey

Em Novembro de 1942 os americanos invadiam o Norte de África, na célebre operação Torch (Tocha). O desembarque deu-se nas zonas francesas de Marrocos e colocaram numa tenaz as forças alemãs de Rommel, exprimidas entre o exército americano e os britânicos de Montgomery que avançavam do Egipto.

Nos dias e semanas seguintes os céus portugueses ficaram saturados de aviões que saiam de Inglaterra em direcção ao Norte de África. Passavam esquadrilhas inteiras e o ronronar dos motores era, por vezes, contínuo durante horas.

Jack Ilfrey.

O Governo de Salazar protestou primeiro com os ingleses. Estes mandaram dizer que os aparelhos eram americanos que, apesar dos protestos, pouco fizeram.

Jack Ilfrey era um dos jovens pilotos que viajava num desses grupos. No dia 15 de Novembro, a sua esquadrilha levantou voo e descreveu um arco pelo atlântico para evitar voar directamente sobre Portugal. A perda de um dos depósitos suplementares que tinha nas asas impossibilitava-o de chegar quer ao Norte de África quer a Gibraltar.

No "briefing", antes da partida, todos os pilotos tinham sido avisados que em Lisboa, uma cidade, junto à boca de um grande rio, existia um aeroporto grande e moderno que permitia uma aterragem segura.

Ilfrey conseguiu encontrá-lo e pousou o seu caça P-38 sem grandes incidentes. Era o primeiro americano a aterrar em Portugal. Convidado a sair do avião foi levado para o edifício principal do aeroporto onde deu de caras com vários pilotos alemães, da Lufthansa, que ali se encontravam.

Segundo me escreveu, e também relatou num livro editado depois da guerra, sentiu-se extremamente desconfortável pelo facto de ser interrogado na frente dos “inimigos”…

Na companhia de um piloto português regressou mais tarde ao seu avião. Rodeado de civis e guardado por autoridades foi sentado aos comandos para explicar o seu funcionamento. O P-38 tinha sido reabastecido e o oficial português pretendia voá-lo até uma base militar portuguesa, mas nunca teria essa possibilidade.

A meio das explicações ouviu-se o ruído de um outro aparelho. No horizonte surgiu outro P-38, aparentemente com problemas num motor. Quando se fez à pista a multidão e os militares a cavalo deixaram Ilfrey e foram para junto da pista.

O americano aproveitou a oportunidade e ligou os motores. O português foi cuspido da asa e o caça com dupla cauda disparou pelo relvado, atravessou as pistas e parou apenas em Gibraltar.

O caso levantou graves problemas diplomáticos entre Portugal e os EUA. Os Ingleses, também parte interessada, meteram água na fervura, mas o incidente veio criar graves problema no relacionamento difícil que já existia com os americanos.


Harman, o primeiro em Elvas

O outro P-38 trazia aos comandos o capitão James Harman que se viu cercado e arrancado do seu aparelho por militares portugueses pouco satisfeitos com o que acabara de acontecer. Mais tarde contaria a Ilfrey que não percebera nada do que se passara, apenas sentira uma grande hostilidade.

James Harman, de óculos escuros, entre estudantes e outros jovens de Elvas.

Esse sentimento iria desaparecer mais tarde em Elvas, local onde passaria o tempo de internamento no nosso país.

Nessa cidade alentejana, onde foi o primeiro piloto a chegar, estabeleceria contacto com um grupo de estudantes portugueses que arranhavam o inglês e estabeleceram laços – alguns duradouros – com vários aviadores que por ali passaram durante o ano de 1943.

Em Abril de 1943 já estava de regresso ao Norte de África e a 17 desse mês seria abatido.

Realizava uma escolta a bombardeiros quando sofreram um ataque de caças alemães. O P-38 que pilotava foi atingido e ele abandonou-o, mas momentos depois um inimigo atacou-o de novo. Harman, suspenso no para-quedas, não teve qualquer hipótese e foi mortalmente atingido. Segundo Ilfrey o seu corpo nunca seria encontrado.

Carlos Guerreiro

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

"Correio da Manhã" recorda desastre com bombardeiro de Faro

70 anos…

No próximo sábado passam 70 anos sobre a aterragem acidentada do bombardeiro americano PB4Y-1 (versão da marinha do B-24) ao largo de Faro.

Quatro dos americanos que sobreviveram ao acidente. 
Lyle Van Hook é o primeiro da esquerda.
Os restantes são Richard L. Trum, John W. Eden e Julian Pierce.

Cinco tripulantes desapareceram no mar e seis foram salvos por três pescadores que se encontravam numa pequena embarcação. O incidente aconteceu de noite, uma noite fria, e não fosse a presença dos portugueses ter-se-iam perdido, possivelmente, mais algumas vidas.

Há mais de uma década consegui juntar – através de videoconferência – o Ti Jaime e Lyle Van Hook. Em Faro estava um dos pescadores e no Arcansas um dos sobreviventes. Traduzi as palavras que um e outro disseram mais de meio século depois dos acontecimentos.

Quando finalmente editei o livro já nenhum estava vivo. É, no entanto, a história deles que abre o livro e foi a busca da história deles que me levou a procurar também outros testemunhos e acontecimentos.

No próximo domingo a revista “Domingo” do Correio da Manhã vai recuperar a história. Sei que para além de mim, também procuraram o contacto com o José Vieira, que encontrou os destroços no mar, e com Michael Pease, que quer construir um monumento para recordar este acto e outros que aconteceram pelo país durante aquele período.

Passaram 70 anos… fica um abraço ao Ti Jaime e ao Lyle.

Carlos Guerreiro

O Postalinho...
Há sempre tempo para um «Port Wine»


Postal impresso na empresa Costa Carregal, no Porto, e provavelmente criado pela comunidade portuguesa ou inglesa daquela cidade.

A quase totalidade da propaganda estrangeira era impressa fora de Portugal e não trazia identificação de gráficas ao contrário desta  faz menção à empresa Costa Carregal, na parte traseira do postal.

E não é de estranhar que a autoria deste postal seja da comunidade inglesa do Porto pois não só parte importante da indústria do vinho do Porto estava em mãos britânicas, como esta comunidade se envolveu fortemente no esforço de guerra, chegando a realizar actividades com o objectivo de recolher fundos para a aquisição de aviões e outro material de guerra.

Com este postal promovia-se não só o sangue frio britânico como também o Vinho do Porto.

Carlos Guerreiro

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Mais fitas sobre o Aeroporto de Cabo Ruivo

 Cabo Ruivo, em Lisboa, foi o primeiro aeroporto internacional “a sério” que o país teve.

Até à inauguração do Aeroporto da Portela de Sacavém, em Outubro de 1942, os aviões “de rodas” aterravam em Sintra, mas a verdadeira porta de entrada da capital Portuguesa era Cabo Ruivo, onde as pessoas juntavam para ver a amaragem no Tejo dos grandes “Clippers” da Pan American, que vinham da América, e de outros hidroaviões que traziam gente e correio dos quatro cantos da Europa.

 

Já em 2010 o “Aterrem em Portugal!” tinha trazido alguns filmes com imagens de Cabo Ruivo e outras do Portugal daqueles tempos, nomeadamente dos refugiados e das movimentações diplomáticas que tiveram lugar no nosso país. Tinham sido captadas em finais de 1942 e princípios de 1943.

No youtube apareceu agora um novo vídeo, com cerca e sete minutos, apenas com imagens do Aeroporto Marítimo Internacional de Cabo Ruivo.

Apesar da legenda indicar que teriam sido captadas em 1941, parece-me que esta película faz parte do mesmo lote de imagens que integram os arquivos americanos… São, no entanto, muito mais completas e no final há até uns momentos no interior do balcão da companhia de aviação americana no nosso país.

Bons voos nas asas da nossa história…
Carlos Guerreiro

sábado, 23 de novembro de 2013

Conferência “Os Judeus em Portugal no século XX” em Israel

A Universidade Hebraica de Jerusalém acolhe no dia 26 de Novembro de 2013 uma conferência subordinada ao tema "Os Judeus em Portugal no Século XX", evento organizado pelo Leitorado do Camões, IP e pela embaixada de Portugal naquele país.


A conferência, que se enquadra no programa de Estudos Portugueses e Brasileiros existente na universidade, terá como oradores Irene Flunser Pimentel, da Universidade Nova de Lisboa, Avraham Milgram, historiador do Museu do Holocausto Yad Vashem e Esther Mucznik, vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa.

"Refugiados judeus na cidade neutral de Lisboa”, "Refugiados judeus em Portugal - uma memória que os portugueses gostam de lembrar” e “Os judeus em Portugal no século XXI", são, respectivamente, os assuntos a abordar nas suas comunicações.

Esta iniciativa tem por principal objectivo proporcionar uma visão mais actual da presença dos judeus em Portugal e da sua integração na sociedade portuguesa.

(informação Instituto Camões)

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Dia da memória em Aljezur

Como vem acontecendo nos últimos anos a comunidade alemã reuniu-se no cemitério de Aljezur, junto à campa dos aviadores abatidos durante a II Guerra Mundial, para relembrar os seus mortos no “Volkstrauertag”, o dia da memória.

Criado nos anos 50 este dia tem como objectivo recordar os mortos e todas as vítimas das guerras.



A cerimónia contou com a presença de representantes militares e da Embaixada Alemã em Lisboa, para além de representantes locais e comunidade alemã no Algarve.

Agradeço à Associação de Defesa do Património Histórico e Arqueológico de Aljezur o envio das fotografias.

Carlos Guerreiro

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O Postalinho...
O ataque inglês a Taranto


O cartoon é de Leslie Gilbert Ilingworth e foi publicado no Daily Mail, em Novembro logo a seguir ao ataque britânico à base naval italiana de Taranto.

Mussolini é socado pela Marinha Real e, para todos os efeitos, o resultado desta operação foi mesmo um soco não só nos italianos, mas também numa velha teoria que colocava o poder nos mares na dimensão e no poder de fogo de grandes e pesados navios. O pequeno avião surge como uma nova e efectiva ameaça a poderio de séculos.

O ataque teve lugar na noite de 11 para12 de Novembro de 1940 e mostrou a fragilidade dos grandes navios à nova e, relativamente pequena, arma que era o avião.

O ataque britânico foi liderado pelo porta-aviões "Illustrious" que, nesta altura, transportava uns obsoletos biplanos "Swordfish" para realizar o ataque.

Foram utilizadas duas vagas com 12 e 9 aparelhos, respectivamente. Entre a primeira metade estavam armados com torpedos e o resto como bombas. Na segunda quatro transportavam sinalização luminosa e torpedos.

Durante a noite o ataque destruiu depósitos de combustível e outras facilidades no Porto de Taranto onde se encontrava a nata da frota italiana.

Três grandes cruzadores foram atingidos e danificados para além de estragos noutros navios mais pequenos. Os ingleses perderam dois aviões. Num deles morreram os dois tripulantes enquanto do outro piloto e artilheiro foram feitos prisioneiros.

Com esta vitória a Inglaterra, que neste período sofria essencialmente derrotas, pode contar com uma vitória moralizadora enquanto afastava também um grande perigo para a sua frota no mediterrâneo.

A frota italiana era relativamente moderna, apesar de não contar com porta-aviões.

Segundo alguns especialistas os resultados do ataque foram seguidos com muita atenção pelos japoneses que, quase um ano depois, realizaram um ataque muito semelhante mas uma escala muito superior em Pearl Harbor.

Carlos Guerreiro

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Lisboa, cruzamento da vida dos Gerassi

Há cerca de 70 anos, mais precisamente no dia 11 de Novembro de 1943, casavam em Lisboa Helen e Alfred, um casal nascido das coincidências que as guerras sempre encontram para  - além de histórias de morte e de sofrimento - também poder contar histórias de vida.

Tanto um como outro trabalharam para a espionagem britânica ao longo da guerra. Ela fugiu de França em 1940, com rumo incerto, para acabar a trabalhar na Embaixada Britânica em Lisboa.

O casal Gerassi em finais dos anos 40.
(Foto: Patrick Gerassi)
Ele começou por fazer o caminho inverso. Cidadão francês ofereceu-se aos ingleses em Lisboa e partiu para França onde colaborou na organização de uma linha de fuga que terminava em Portugal transportando refugiados, agentes e pilotos aliados abatidos. Foi preso pelos nazis e pela PVDE (antecessora da PIDE), mas saiu sempre ileso.

As histórias de Helen Girvin Balfour e Alfred Gerassi e do seu encontro em Lisboa têm ocupado desde há muito o filho, Patrick, que conseguiu ao longo dos anos reconstituir a vida dos pais durante a 2ª guerra.


Preso duas vezes

O francês Alfred Gerassi ofereceu-se, em Lisboa, para trabalhar com os ingleses em Março de 1941.

Natural de Paris foi enviado para a sua cidade natal com o objectivo de estabelecer uma rota de fuga que permitisse retirar da França ocupada não só refugiados importantes, mas também agentes secretos e pilotos aliados cujos aparelhos tivessem sido abatidos.

As suas actividades tornaram-no suspeito aos olhos dos alemães e a Gestapo deteve-o em Março do ano seguinte. Não teriam muitas provas contra ele e, mantendo o sangue-frio, não conseguiram que fizesse qualquer confissão.

Em Maio foi libertado pelos alemães e voltou às suas actividades, mas agora em Lyon. Regressou a Lisboa em Novembro, mas não ficou parado.

Os serviços secretos britânicos encarregaram-no de organizar uma nova rota de fuga. Esta estendia-se desde a França, passava por Bilbao, em Espanha, e terminava em Lisboa.

Alfred e Helen Gerassi em Lisboa em 1944.
(Foto Patrick Gerassi)
As suas movimentações alertaram a PVDE que também o deteve. Durante nove semanas, em 1944, esteve preso e foi interrogado.

Segundo a nota de recomendação da Medalha de Coragem ao Serviço da Paz, que lhe foi entregue no final da Guerra pelo Rei de Inglaterra, Gerassi voltou a não fazer qualquer denúncia ou confissão.

A documentação recolhida pelo filho assegura que as rotas de fuga criadas por Alfred serviram para fazer sair de França diversos agentes importantes e pessoal da RAF.

Mesmo enquanto esteve detido pela PVDE a rede não cessou a sua actividade até porque da embaixada chegava, como visitante, Helen Girvin Balfour que também era sua mulher…


Uma mulher decidida

Helen foi apanhada em França, onde vivia desde 1929, pela guerra e pela chegada inesperada das forças alemãs em 1940.

Como milhares de outras pessoas rumou primeiro à fronteira franco-espanhola e, sozinha, conseguiu atravessar o país vizinho de comboio, na esperança de chegar a Lisboa e dali partir para o seu país natal, o Reino Unido.

Na fronteira com Portugal um Guardia-Civil ficou-lhe com as economias em troca do direito de passagem para terras lusas. Conseguiu, mesmo assim, chegar ao Porto onde, sem dinheiro, bateu à porta do consulado britânico.

Ficou primeiro espantada e depois desesperada quando o cônsul não lhe oferece qualquer ajuda ou solução para o seu futuro imediato.

Em lágrimas percorre sem rumo algumas ruas do Porto. Não tem dinheiro e não sabe o que fazer a seguir. Para sua surpresa depara-se com dois homens que leem, na rua, o jornal inglês “The Daily Telegraph”.

Aborda-os e conta-lhes as suas últimas desventuras.

Boletim de lactente do filho mais velho do casal Gerassi.
(Foto: Patrick Gerassi)


Os leitores do jornal eram espanhóis, de Jeres, e trabalhavam em Vila Nova de Gaia, nas Caves de Gonzáles Byas. Num inglês quase perfeito prometem ajudar Helen e colocam-na rapidamente num comboio com destino a Lisboa.

Na capital portuguesa consegue reorganizar a vida e começa até a trabalhar na Embaixada Britânica…

Meses mais tarde o consul de Porto deslocou-se a Lisboa e ficou surpreendido por a ver a trabalhar na Embaixada. Preocupado disse-lhe que o deveria ter "avisado" que era conhecida do Embaixador...

Em Maio de 1943 Helen foi uma das últimas pessoas a encontrar-se em Portugal com o actor Leslie Howard, quando este esteve no nosso país para um conjunto de conferências.

Helen era ainda prima do actor que foi um dos protagonista do filme "E tudo o Vento Levou".

No dia 1 de Junho de 1943 Leslie levantou voo do Aeroporto da Portela no Voo777 com destino ao Reino Unido. Treze passageiros e quatro tripulantes desapareceram quando o avião foi abatido pela força Aérea Alemã sobre a Baía da Biscaia.

Foi também em Lisboa que casou com Alfred, em Novembro de 1943, e foi também ali que lhes nasceu o primeiro filho, Jean-Michel ou Juan Miguel, em Fevereiro do ano seguinte.


À procura de respostas

Desde há muito que outro filho do casal, Patrick Gerassi, tenta reconstituir os passos dos pais durante o conturbado período da 2ª guerra Mundial.

Jornalista da BBC foi desenhando, entre documentos, fotografias e memórias, uma imagem cada vez mais clara do que aconteceu no mundo de intrigas onde estes se movimentaram.

Helen com Manuel González Díez, um dos irmãos que a ajudou a chegar a Lisboa depois de muitos contratempos.
(Foto: Patrick Gerassi)
Em Fevereiro deste ano conseguiu dar mais um passo. Tinha a foto de um dos homens que ajudara a mãe quando ela chegara desamparada ao Porto. Como sabia que eles eram de Jerez, enviou a imagem para um jornal dessa cidade andaluza na esperança de que alguém o conseguisse identificar.

Os arquivos da casa Byas trouxeram a resposta.

Tratava-se de Manuel González Díez, filho de um marquês andaluz, que durante duas décadas geriu as caves Byas no Porto.

Apesar de ter falecido em 1991, a esposa ainda é viva. Razão suficiente para Patrick – que neste momento vive na Galiza – se meter à estrada com a esperança de descobrir um pouco mais da sua história…

Carlos Guerreiro

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Conversas sobre Propaganda e Guerra

O tema da Propaganda e a Guerra durante o século XX vão estar em destaque durante a próxima semana numa conferência internacional que reúne em Lisboa dezenas de especialistas portugueses e estrangeiros.

Entre segunda e terça-feira vão ser abordadas temáticas sobre a propaganda nas duas guerras mundiais, no período entre guerras e na guerra fria, para além alguns de conflitos nacionais como a guerra do ultramar.


Na segunda os especialistas vão concentrar-se mais na primeira metade do século XX. Uma metade um pouco mais curta pois terminará na Guerra Civil de Espanha.

A terça-feira arrancará depois com o período da II Guerra Mundial e prosseguirá pelas décadas seguintes até à Guerra do Golfo, por exemplo.

Obviamente serão também analisadas temáticas relacionadas com a estética, cinema, imagem etc…

Esta conferência internacional realiza-se na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa. O programa completo pode ser encontrado na AGENDA do blogue ou AQUI

No final da semana realiza-se também a primeira edição das Conversas de Guerra.

Na sexta-feira à noite e no sábado, durante a tarde, fala-se sobre a campanha do pacífico.


Nesse sentido vão ser apresentadas algumas comunicações relacionadas com o fardamento, a aviação e o equipamento militar utilizado.

Muito interessante serÁ, no sábado, a intervenção do Coronel Luís Albuquerque que vai conversar sobre o material de guerra japonês que foi apreendido em Timor no final da II Guerra Mundial…

O programa completo também pode ser encontrado na nossa AGENDA

Há várias razões para sair de casa…

Carlos Guerreiro

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Livros...
Espiões em Portugal durante a II Guerra Mundial

A espionagem em Portugal durante a 2ª Guerra Mundial é o tema central do novo livro de Irene Pimentel que, para completar estas cerca de 400 páginas, consultou arquivos britânicos, americanos, alemães e portugueses.

O resultado desse trabalho é apresentado esta tarde em Lisboa, por volta das 18.30 horas, na Fnac do Chiado.

Esta nova obra “Espiões em Portugal durante a II Guerra Mundial” percorre – como a autora própria reconhece - um caminho já muito explorado por outros livros e autores que nas últimas décadas têm investigado este tema, mas o assunto da espionagem é, e continuará a ser, inesgotável.

Todos os dias surgem novas fontes e novos dados que individualmente ou cruzados com material já existente ajudam a redescobrir histórias ou a reescrevê-las.


Por Lisboa, a capital neutral de uma Europa em guerra, passaram muitas personalidades que renasceram no pós-guerra como personagens de ficção, tão fantásticas e inacreditáveis tinham sido as suas aventuras.

Encaixam perfeitamente nesta descrição os agentes duplos Trycicle ou Garbo, elementos fundamentais de um logro montado pelos britânicos que desviaram as atenções das praias da Normandia no Dia D. Tanto um como outro não só passaram por Lisboa, como a cidade foi um importante centro para as suas actividades.

É com a história da operação “Fortitude”, que envolveu os dois agentes já referidos, que o novo livro de Irene Pimentel arranca. Dessas primeiras páginas seguimos depois por outros caminhos.

Um resumo dos vários capítulos é apresentado logo no prefácio.

É esse resumo que aqui fica:

“O capítulo I, de apresentação das principais redes de espionagem e de Informação, britânicas e alemãs, aborda assim o período desde os anos trinta e 1940, com uma caracterização do regime salazarista, bem como breves referências à tentativa de internacionalização do fascismo e do nacional-socialismo em Portugal, o início da II Guerra Mundial e a neutralidade portuguesa. Segue-se o capítulo II, que cobre os anos de 1940 e 1941, este último o «de toda» a colaboração luso-alemã, tratando do início da actuação em Portugal das redes de propaganda e espionagem dos dois campos beligerantes, Inglaterra e Alemanha, respectivamente, o SIS/MI6, no primeiro caso, e a Abwehr e a Gestapo-SD, no último caso.

É ainda referida a actuação da Legião Portuguesa, questionando se esta era a rede de Intelligence e de contra-espionagem portuguesa.

O capítulo III trata da actuação em Portugal, em 1941 e 1942, das redes britânicas MI 9 e SOE-rede Shell, bem como o relacionamento desta última com a LP, por um lado, e das redes da Abwehr e da Gestapo/SD em solo português, nomeadamente, bem como o relacionamento destas últimas com a PVDE. Segue-se o capítulo IV, que aborda o ano de 1942, difícil para o relacionamento luso-britânico, devido ao desmantelamento da rede Shell, num período em que, do lado alemão, então com preponderância e maior liberdade de actuação, a Abwehr lança campanhas de desinformação contra os britânicos e denuncia as suas organização à PVDE.

São ainda referidas a resistência e colaboração de refugiados, judeus portugueses e comunistas alemães com as redes aliadas, em particular com a francesa e soviética. O capítulo V, sai um pouco da cronologia, pois ocupa-se da actuação dos serviços secretos franceses e norte-americano em Portugal, num período mais alargado entre os anos 40, em particular entre 1942 e 1944.

A segunda parte do livro cobre o período entre 1943 e 1945. No capítulo VI, «A caminho da vitória aliada», é tratada a reacção e retaliação dos britânicos contra o desmantelamento das suas redes, em 1941 e 1942, denunciando, por seu turno, as alemãs, actuantes em solo português. Este capítulo, cujo arco temporal é sobretudo o ano de 1943, “sai” de Portugal continental, fazendo incursões geográficas pelos Açores e por outras locais não-europeus de África e da Índia, sob administração portuguesa, nomeadamente por Moçambique e Mormugão.

Termina com uma análise de Lisboa enquanto plataforma de negociações entre personalidades do Eixo, com os Aliados ocidentais, com vista à assinatura de uma paz unilateral com estes. O capítulo VII dá conta, em 1943 e 1944, do conhecimento e desmantelamento, em Portugal, com a ajuda dos britânicos, das quatro redes alemãs, da Abwehr e da Gestapo. Segue-se o capítulo VIII, sobre os espiões duplos do Double Cross (XX) Committee, de «Snow» - o primeiro espião duplo dos britânicos - a «Garbo» e «Tricycle», passando por «Zig Zag» e «Artist», que actuaram em Portugal e tiveram um papel importantíssimo no apoio ao desembarque aliado na Normandia, em Junho de 1944.

Finalmente, o capítulo IX aborda os últimos dois anos da guerra, 1944 e 1945, analisando questões como o embargo do volfrâmio pelo governo português, o trágico rapto de Jebsen («Artist»), bem como o encarceramento deste último e da jornalista alemã Pedtra Vermehren em campos de concentração alemães, onde o primeiro acabaria por ser assassinado.

Num período em que a Abwehr, com a queda em desgraça do almirante Canaris, é integrada na estrutura da Gestapo-SD, apenas esta ainda opera em Portugal, mas os seus elementos, bem como os seus cúmplices portugueses são expulso e presos pelo governo salazarista, quando no horizonte se vê o final da guerra, marcada pela derrota dos nazi-fascistas. No final da guerra, é tempo de os serviços secretos britânicos e norte-americanos, cujo destino é brevemente apontado, interrogarem os espiões alemães, presos, e conhecer a composição das suas redes.

O livro termina com um «Epílogo, onde se inclui a vitória aliada e o fim do SD em Portugal, e é abordado um episódio, já na guerra-fria, que remete para a alegada actuação de redes comunistas durante a II Guerra Mundial e revela a hegemonia mundial do mundo ocidental pelos EUA, acertando baterias contra o novo inimigo – a União Soviética.”

Boas leituras

Carlos Guerreiro

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A Guerra na Madeira apresentada em Lisboa

Um acrescento à agenda deste mês e para hoje.

Em Lisboa apresenta-se hoje o livro “A Madeira na Segunda Guerra Mundial” de João Abel de Freitas.


A apresentação tem lugar no Bar da Ordem dos Engenheiros, na Rua António Augusto de Aguiar, em Lisboa…

 Boas Leituras
Carlos Guerreiro

«Escaparate de Utilidades»
Penteados Clipper da América

Jornal "Diário de Lisboa", 11 de Novembro de 1943

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Nova Iorque lembra Sousa Mendes

Sousa Mendes será figura central no Simpósio "Portugal e a Crise de Refugiados Judeus Durante a Crise da Segunda Guerra Mundial" que se realiza no domingo, em Nova Iorque, adianta a Agência Lusa.
Partida do navio Niassa do porto de Lisboa.

As histórias dos que passaram por Lisboa como refugiados e a acção de Aristides de Sousa Mendes, em Bordéus, vão estar no centro deste encontro que conta com a participação de diversos especialistas portugueses e estrangeiros.

Entre os convidados estão, por exemplo, Louis-Philip Mendes, neto de Sousa Mendes e a historiadora portuguesa Margarida Magalhães Ramalho.

O PROGRAMA encerra com a exibição do filme de 1994 “Lisboa, porto de Esperança” (Lisbon: Harbour of Hope).

"O objectivo é chamar a atenção para Portugal enquanto abrigo para os refugiados durante a Segunda Guerra Mundial e falar do papel de Aristides de Sousa Mendes na passagem segura de todos os que fugiam do holocausto", explicou à Lusa Olivia Mattis, vice-presidente da Fundação Sousa Mendes, uma das organizadoras do evento.

Além da Fundação Sousa Mendes, o evento é também organizado pelo "Center for Jewish History", o "Instituto Leo Baeck" e a "American Sephardi Federation".

Carlos Guerreiro com Lusa

O Postalinho...
Aviador Nazi ao telefone com Goebbels


O cartoon é de um artista britânico conhecido por Kem (Kimon Evan Marengo), mas não foi possível confirmar a data da publicação original.

Kem foi responsável pela edição de vários livros e participou também nas publicações de outros autores, e é por isso possível que este cartoon tenha sido publicado numa dessas experiências.

O desenho terá sido publicado, possivelmente, em finais de 1940 ou princípios de 1941, após o fim da Batalha de Inglaterra, quando a força área alemã, a Luftwaffe, tentou destruir os homólogos britânicos da RAF, para permitir a invasão da ilha.

Goebbels, o Ministro da Propaganda do Reich, prometera que a Luftwaffe chegaria a todo o lado em Inglaterra, destruír a ilha e movimentar-se como e para onde quisessem.

As coisas não correram bem assim…

Carlos Guerreiro

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Propaganda para Novembro

O próximo mês vai assistir a uma importante conferência que tem como pano de fundo a propaganda especialmente durante os períodos da primeira e segunda Guerra Mundiais.

“Guerra e propaganda no Século XX” reúne durante dois dias (11 e 12 de Novembro) especialistas portugueses estrangeiros na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em Lisboa.

No primeiro dia será abordado o período da I Guerra Mundial até à Guerra Civil de Espanha, seguindo-se no dia seguinte a II Guerra Mundial, a Guerra Fria, a Guerra Colonial ou a Guerra do Golfo, entre outras

Outros debates e mesas redondas vão olhar também para questões de estética, de propaganda digital e outros assuntos relevantes quando se estuda este tipo de temas.

Para mais informações consulte a nossa AGENDA, onde pode encontrar o programa e outra informação…

Durante o mês de Novembro poderá ainda assistir ao lançamento do novo livro de Irene Pimentel, desta vez dedicado aos espiões que passaram por Lisboa.


O lançamento da obra está marcado para a próxima terça-feira (5 de Novembro) na Fnac do Chiado.

Para quem está interessado em livros e autores há mais por onde escolher.

Este sábado o Espaço Memória do Exílios recebe Domingos Amaral para um encontro se vai falar do seu “Retrato da Mãe de Hitler”…

De portas abertas continuam também várias exposições que merecem ser vistas, até porque todas têm como prazo de validade o mês de Dezembro…

Um bom Novembro…
Carlos Guerreiro

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Algumas perguntas a Avelãs Nunes (2)

Publicamos a segunda parte da entrevista com o professor Avelãs Nunes, professor de história da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e autor do livro “O Estado Novo e o Volfrâmio (1933-1947)", onde realiza um estudo sobre o impacto económico e social da exploração do volfrâmio em Portugal durante a 2ª Guerra Mundial.

(Leia AQUI a primeira parte da Entrevista, publicada no dia 24 de Outubro de 2013)

Apesar da censura os cartoonistas portugueses também abordaram como puderam a febre do minério que assaltou o país. 
Diário de Notícias, 20 Março de 1941.

Aterrem em Portugal: Há descrições de aldeias desertas, abandonadas porque se partia com a febre do volfrâmio. É um facto ou há algum exagero neste quadro?

J.P. Avelãs Nunes: Aconteceram situações próximas dessa em zonas onde a actividade económica normal foi interrompida devido à guerra. Como não havia forma de ganhar um salário, as pessoas viram-se obrigadas a migrar para locais onde existiam explorações de volfrâmio.

Verificou-se no Alentejo, por exemplo, onde a exploração de pirites de cobre foi quase interrompida e os mineiros ficaram sem trabalho. Aconteceu em S. Domingos, em Aljustrel, no Lousal e noutros locais durante o conflito. Exploravam-se metais considerados pouco relevantes para o esforço de guerra — ou que existiam noutros locais —, de baixo valor por tonelada.

Além do preço baixo de alguns metais havia a questão do transporte. Os navios estavam ameaçados de afundamento pelos submarinos alemães. O Reino Unido, por exemplo, quase não importou minério de cobre. Com desemprego em escala significativa no Alentejo, os mineiros procuraram trabalho noutros locais. Migravam pois sabiam da busca desesperada de mão-de-obra mineira qualificada no interior centro e norte, onde crescia a extracção de volfrâmio.

Perto das concessões de tungsténio, as pessoas viviam nas minas durante a semana mas regressavam às suas aldeias no fim de semana. De um modo geral, não se pode, pois, falar de uma desertificação das aldeias. Para além do mais, em inúmeros casos a migração era feita pelos homens em idade produtiva, enquanto as mulheres, as crianças e os idosos ficavam nas localidades de origem a assegurar actividades permanentes dos agregados familiares.

Muitas mulheres trabalhavam no volfrâmio, mas estas normalmente residiam em povoações próximas das minas. Empregavam-se na separação de minério, no “Kilo” e no “Pilha”, no comércio informal (na “candonga”) e no contrabando.

Pode-se, ainda, chamar a atenção para um outro fenómeno relevante. Chegado o momento de ingressar na actividade mineira formal, quem era remediado e tinha contactos nas chefias intermédias das empresas concessionárias, trabalhava à superfície. Os mais pobres e com menos conhecimentos iam para o fundo da mina, onde o dia-a-dia era mais duro, com mais acidentes e doenças profissionais.

Existiram, também, as chamadas “aldeias de viúvas”, mas essa expressão tem a ver com as mortes causadas pela silicose, uma doença comum entre os mineiros do tungsténio porque as condições de higiene no trabalho mantinham-se muito deficientes. A silicose é uma doença respiratória irreversível que causa incapacidade e pode levar à morte quando os pulmões ficam demasiado afectados.

A rocha encaixante dos filões de volfrâmio tinha muita sílica. As brocas dos martelos pneumáticos, as explosões e o arrastamento de inertes levantavam muito pó que os operários inspiravam. A poeira de sílica é quimicamente muito activa e quando as partículas entram em contacto com os pulmões causam cicatrização. Se esta atinge uma determinada dimensão, as pessoas deixam de respirar.


Aterrem em Portugal: Em que condições trabalhavam estas pessoas?

J.P. Avelãs Nunes: As condições eram difíceis mas os mineiros aceitavam-nas porque a vida da maioria dos portugueses não se apresentava menos dramática. As minas continuavam, apenas, a pobreza e a precariedade que muitos conheciam. Os acidentes e as doenças profissionais eram frequentes.

Trabalhar muitos dias a perfurar rocha ou a arrastar minério significava que as pessoas ficavam a sofrer de silicose. Após cinco ou seis anos de actividade, a doença atingia um nível muito elevado, gerando incapacidade grave ou morte.

À medida que as minas se tornavam complexas, com galerias a maior profundidade, os mineiros passavam a tomar as refeições no subsolo. Normalmente colocavam os explosivos e as descargas aconteciam imediatamente antes das refeições. O tempo de descanso era, assim, passado num ambiente saturado de poeira de sílica.

A iluminação era garantida através dos gasómetros. Utilizavam carbonato de cálcio, o qual, em contacto com a água, gerava uma chama. Tinham, no entanto, uma capacidade de iluminação muito baixa.

Os mineiros não utilizavam botas especiais ou capacetes entre outras razões porque estes eram relativamente caros e as empresas não os forneciam. Se estavam longe de casa e dormiam nas camaratas das empresas, usavam a mesma roupa durante toda a semana, sem tomar banho.

As camas nas camaratas eram, frequentemente, uma enxerga com palha ou mato e um cobertor. Havia infestação permanente de piolhos e de percevejos.

À superfície, nos regimes do “Kilo” e do “Pilha”, como se verificava um menor ou nenhum controlo técnico, registavam-se mais desmoronamentos nas sanjas e nos poços. O uso indevido de explosivos causava, também, muitos acidentes.

Dizer que os “volframistas” ganhavam “dinheiro fácil” — expressão muito em voga naquele tempo — resulta de uma interpretação errónea. Poderia parecer fácil a elites locais ou nacionais pouco habituadas a observar camponeses pobres com acesso a bens e a serviços “de luxo”. Implicava, no entanto, trabalho fisicamente violento e/ou riscos significativos.

Apesar de a guerra ter obrigado as empresas dos países beligerantes a melhorar as condições de trabalho e de vida, os martelos pneumáticos com jacto de água, obrigatórios no Reino Unido, eram pouco utilizados em Portugal. Houve, pois, uma transferência de tecnologia já ultrapassada para o nosso país.

Ocorreu, igualmente, a contaminação de lençóis friáticos, cursos de água e terrenos agrícolas, uma vez que a exploração de jazigos de volfrâmio gerava a libertação de poluentes químicos a partir do esgoto das concessões e das escombreiras.

Algumas notícias publicadas na imprensa em 1941, antes do noticiário sobre o tema ser proibido pela censura.

Aterrem em Portugal: E quando, em Junho de 1944, António de Oliveira Salazar decidiu interromper a exploração de minérios de tungsténio criou-se um vazio?

J.P. Avelãs Nunes: Sim e não. As Minas da Panasqueira chegaram a empregar mais de 11000 pessoas (6000 na mina e 5000 no “Kilo”). Se acrescentarmos familiares, deparamos com um quantitativo de pessoas que superava o da generalidade das sedes de concelho portuguesas.

Fora do contexto da guerra económica, esta situação dificilmente seria mantida. Em Junho de 1944 ou em Maio de 1945, a passagem para uma economia de paz teria de acontecer e, com ela, a desvalorização do preço dos minérios de volfrâmio.

As explorações informais e as minas mais pequenas só funcionavam em contexto de conflito militar global e mesmos as maiores, como a Panasqueira ou a Borralha, também reduziram muito a actividade em período de paz.

Esta evolução não era desconhecida e havia a percepção de que acabaria por suceder. No entanto, a opção de interromper unilateralmente toda a extracção de tungsténio, assumida pelo Governo do Estado Novo por razões ideológicas, antecipou e agravou essas dificuldades.

Portugal poderia ter negociado soluções alternativas com os Aliados. Uma tal hipótese foi, mesmo, aventada por Londres e Washington no final de 1943 e início de 1944.

Talvez o Chefe da ditadura tenha recusado a proposta para não ter de assumir uma rotura com o Eixo, para explicitar a sua discordância com a decisão de forçar o Terceiro Reich e a Alemanha a uma rendição incondicional, para ‘castigar’ o “materialismo” e a falta de respeito pelas hierarquias sociais tradicionais manifestados pelos “volframistas”.

Carlos Guerreiro
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Leia mais sobre a questão doVolfrâmio.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Algumas perguntas a Avelãs Nunes (1)

João Paulo Avelãs Nunes é professor de história da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e é também autor do livro “O Estado Novo e o Volfrâmio (1933-1947)", onde faz um estudo não só sobre o impacto económico, mas também sobre o impacto social que a exploração do volfrâmio teve em Portugal durante a 2ª Guerra Mundial.

O "Aterrem em Portugal!" publica hoje a primeira parte de um longa entrevista feita a Avelãs Nunes sobre este tema.


Aterrem em Portugal: Como é que o volfrâmio assume uma importância central nas exportações portuguesas durante o período da Segunda Guerra Mundial?

J.P. Avelãs Nunes: O volfrâmio ou tungsténio, combinado com outros metais, tem diversas utilizações, sendo as mais significativas em contexto de guerra o reforço de blindagens e de projécteis, de componentes de máquinas destinadas a escavar, cortar ou perfurar.

Desde o último quartel do século XIX que o volfrâmio é utilizado nessas funções e, por isso, sempre que existem conflitos militares aumenta a sua procura. Na Segunda Guerra Mundial a procura é superior à de qualquer outro período porque a utilização de blindagens se generalizou e também porque, a partir de meados de 1941, um dos lados do conflito passou a depender, quase na totalidade, da produção ibérica de concentrados.

Para a Alemanha era decisivo comprar tungsténio a Espanha e a Portugal porque não tinha acesso a outras reservas. O Reino Unido e, mais tarde, os EUA queriam impedir ou, pelo menos, reduzir a quantidade de minério a que os alemães acediam para assim diminuir a sua capacidade de produção de armamento.

Numa lógica essencialmente preemptiva, pois não necessitavam do volfrâmio ibérico, os Aliados compravam todo o volfrâmio que podiam, desequilibrando completamente a relação entre a oferta e a procura. O preço da tonelada disparou e fez com que a importância das vendas de concentrados de tungsténio na balança comercial portuguesa também aumentasse brutalmente.


Aterrem em Portugal: Para além da importância comercial o volfrâmio assume também grande importância no jogo diplomático ao longo de todo o conflito?

J.P. Avelãs Nunes: É melhor dizer que o volfrâmio está no centro do jogo diplomático. Uma das razões que terá dissuadido a Alemanha de invadir a Península Ibérica e, especialmente, Portugal foi a importância das reservas nacionais de volfrâmio.

Cartoon britânico publicado no jornal "Daily Mail" de Maio de 1944.

As maiores minas de tungsténio em Portugal estavam concessionadas a britânicos e a franceses ou eram controladas por técnicos ligados a estes dois países. Uma invasão alemã — que arrancaria dos Pirenéus — daria tempo para destruir ou sabotar as concessões mais importantes, anulando a produção durante muitos meses.

Desde que Portugal continuasse a assegurar o fornecimento de concentrados e numa altura em que a guerra ainda se encontrava equilibrada, os alemães não arriscaram uma interrupção da produção de volfrâmio.

As maiores pressões surgiram quando os Aliados começaram a ter vantagem e exigiram a diminuição ou a suspensão do fornecimento de tungsténio à Alemanha. O Reino Unido chegou, em fins de 1943 e princípios de 1944, a conceber apoiar o derrube de António de Oliveira Salazar ou do Estado Novo devido à recusa inicial de cortar as vendas de concentrados à Alemanha.

Os Aliados preparavam já o desembarque na Normandia e continuavam sem ter resposta às suas exigências e propostas. Foi talvez a única altura em que o regime correu o risco de ser derrubado por uma acção interna que contaria com apoio por parte de Londres. Salvou-se o regime nomeadamente porque a decisão de interromper as exportações de tungsténio para Berlim surge na noite de 5 para 6 de Junho de 1944, na véspera do desembarque Aliado na Normandia.


Aterrem em Portugal: Em diversos documentos oficiais surge a expressão “faroeste” para caracterizar o ambiente nas zonas do volfrâmio. Justifica-se esta expressão?

J.P. Avelãs Nunes: “Faroeste” ou “corrida ao ouro” na Califórnia são alguns dos termos comparativos que surgem. O volfrâmio alcançava preços elevados mesmo no mercado tabelado imposto pelo governo português. A partir de certa altura a Comissão Reguladora do Comércio dos Metais deveria comprar toda a produção e disponibilizá-la para exportação nos termos estabelecidos pelos acordos assinados com os beligerantes.

Anúncio publicado no Jornal de Notícias em 12 de Fevereiro de 1942.

Enquanto que, no centro e norte de Portugal continental, durante a Segunda Guerra Mundial, o salário de um trabalhador rural qualificado era de cerca de 10 a 12 escudos por dia, um quilo de volfrâmio no mercado tabelado valia bastante mais do que isso e no mercado negro chegou a atingir preços de 500, 750 e, mesmo, 1000 escudos.

A expressão “corrida ao ouro” surge, pois, naquele tempo, no sentido literal. Em princípios de 1942, ainda sem a intervenção do Estado português e com a guerra económica entre os dois blocos militares no seu ponto mais alto, encontrar uma pedra de volfrâmio representava o equivalente à remuneração de muitos dias de trabalho.

Quem necessitava e quem podia envolvia-se no processo de extracção, concentração e comercialização com grande empenho. Houve uma gigantesca mobilização porque as condições de vida eram muito difíceis. Em diversos sectores de actividade a guerra agravou o desemprego e alguns cessaram mesmo a actividade.

Outra razão para se utilizar estas expressões prende-se com o facto de a exploração do volfrâmio ser feita em regimes diversos. Existiam minas organizadas (com galerias, poços, cortas e/ou sanjas) que implicavam empresas estruturadas e acompanhamento técnico permanente. Nestes casos, devido ao aumento da procura, os ordenados subiram um pouco, mas a situação sociolaboral podia-se considerar como normal.

Havia, ainda, um tipo de exploração apenas realizada a céu aberto, que exigia menos condições, que implicava menor enquadramento técnico, mas que envolvia mais pessoas. Tratou-se da modalidade do “Kilo”, em que pequenos grupos de mineiros estabeleciam um contrato com o concessionário. Trabalhavam “à tarefa”, cabendo o manusear de explosivos e o acompanhamento técnico aos agentes económicos formais. Toda a produção deveria ser vendida aos concessionários.

Antes de serem proibidas pela censura vários jornais avançaram com notícias sobre o que estava a acontecer no país devido à exploração do volfrâmio.
Diário de Noticias, 12 de Março de 1941

Por fim havia a exploração completamente informal (o “Pilha”) e o roubo de minério ou de concentrados. Dado o preço dos minérios de tungsténio e o montante dos salários, a tentação de furtar, de desviar parte da produção para o “mercado negro” ou de extrair ilegalmente era muito grande. Mesmo alguns guardas das minas roubavam. Conta-se, por exemplo, que enchiam os canos das armas (por norma espingardas de caça) com minério de volfrâmio já concentrado que depois vendiam “na candonga”.

Há, também, notícias de roubos envolvendo dezenas de pessoas. Nas Minas da Panasqueira relatam-se assaltos ao cabo aéreo, um sistema de transporte de minério que utilizava grandes baldes metálicos suspensos por cabos que ligavam as zonas de extracção à Lavaria do Rio. As pessoas subiam aos postes, saltavam para as vagonetas e atiravam fora o minério que outros recolhiam. Muitas vezes apareciam os guardas da mina e a GNR, gerando-se situações de grande tensão.

Outros fenómenos ajudariam a criar um ambiente de “faroeste”. Atraídos pelo dinheiro e oriundos das cidades do litoral ou de outras regiões do país, chegavam às zonas de exploração de volfrâmio grupos de migrantes e de prostitutas. Fala-se de comboios cheios num vaivém de gente.

Haveria dinheiro em circulação e armas, incumprimento quase sistemático da legislação e relativização de interditos morais; esbanjamento de riqueza e acumulação de recursos financeiros ou, mesmo, de algumas fortunas; alteração, mesmo que apenas temporária, de regras e de hierarquias sociais. Muitas pessoas antes pobres adquiriram bens e serviços a que por norma não tinham acesso.

Ocorriam situações pouco habituais em zonas do país — o centro e o norte — habitualmente conservadoras. Com a subversão parcial das hierarquias e dos valores, ficou das áreas mineiras a imagem de um mundo à parte, de uma “Califórnia” ou de um “faroeste”, onde tudo era estranho mas possível.

Carlos Guerreiro
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